(desenhado por mim)
Mãos
femininas seguradas ao volante, em cima do volante, uma estrada calma sem carros
à frente da sua visão, a música serena que leva sem ser necessário ter uma conversa,
mas concentrada na estrada, decidiu olhar para o retrovisor inteiro e aparecem
três rapazes, dos quais os laterais estavam a dormir e, ao meio, estava a
observá-los, e começou a conversa:
-O que se
passa, querido?
-Nada, mãe.
Só estou a apreciar este momento.
-O que queres
dizer?
-Só quero
recordar este momento antes de…
Um longo silêncio…
-Antes de
quê?
-Bem, estive
a observar-te, mãe. Tu és crescida, estás a conduzir para nós e estás a tomar
conta de nós…
-Bem, isso é
normal para as mães, e claro, os pais também, filho.
-Sim, mas
foste uma criança como nós e agora és adulta.
-Sim?
-Não tarda
irei crescer, aliás estou a crescer para ficar grande como tu, por isso quero
aproveitar este momento e lembrá-lo enquanto criança.
-Mas, no teu
futuro, podes guardar recordações. Existem sempre novas recordações.
-Sim, mas a
vida é curta, mãe.
-Filho…
-Sim, mãe,
não devia pensar nisso…
-Na tua
idade, ninguém pensa nisso.
-Lamento,
mas pensei. Olha para o irmão. – Apontou a sua direita – ele é cuidado pela avó
dele, não tarda que a avó vai deixar de ser capaz de cuidar do neto.
-Filho,
jamais deixaria o teu irmão, tem-nos a nós.
-Sim, eu sei,
mãe. Mas ele irá sofrer um pouco porque, embora o tratemos como nossa família,
ele poderia sentir que não faz parte da nossa família. Poderá sofrer se a avó
morrer, e não lhe restará mais família.
-Filho…
-Imagina, se
não chegasse a conhecer o meu irmão, o que poderia acontecer-lhe? Foi
abandonado pelos pais, é cuidado pela avó, mãe.
-Sim, eu
sei, mas essa parte do “se” já não existe, ok? Eu e o teu pai jamais deixaremos
o teu irmão. Amamos o teu irmão da mesma forma que te amamos a ti.
-Sim, eu sei,
mãe. E agora falando deste rapaz tão teimoso, – Virou-se para a sua esquerda –
ele tem pais, mas poderá sofrer discriminação.
-Não vamos
deixar que os outros o discriminem.
-Estás
certa, mãe, mas não podemos controlar tudo. Ele poderia sentir-se discriminado quando
estivesse sozinho numa zona, por exemplo numa loja, restaurante, entre outras.
-Percebo,
mas filho, podemos ensinar-lhe a não ceder aos discriminadores tão facilmente.
-Sim,
podemos ensinar, mas a questão é: ele é capaz de ficar mais forte?
-Eu acredito
que sim.
-Tu
acreditas porque tu queres, mãe. Não te cabe saber tudo. Só ele é que sabe se é
capaz ou não.
-Filho, por que
pensaste em tudo isso acerca dos teus irmãos? O que te levou a pensares nisso?
-Bem… quando
eles adormeceram, lembrei-me que a tia teve de enfrentar várias situações
horríveis.
-Filho… -
Respirou fundo.
- Sobreviveu
ao acidente de avião mas perdeu o noivo, foi abandonada por três dias numa
montanha nevada, mesmo assim sobreviveu, mas não está viva. Porque ela está a
passar por uma depressão, enquanto tu e outra tia são casadas, têm filhos e
vivem felizes, presumo eu, enquanto a tia não consegue ultrapassar. Está
sozinha, mesmo que digas que estamos com ela, ela não sente isso. Ou, então,
não se identifica connosco porque nunca sofremos um acidente de avião nem sobrevivemos
num sítio selvagem, não temos essa experiência, por isso está sozinha.
O carro
virou para direita numa berma, abrandou, parou e desligou o motor. A condutora virou-se
para o filho.
-Filho,
estás a assustar-me! Mesmo se a tua tia passar por isso, não passámos pela
experiência que ela teve mas podemos ajudá-la a ultrapassar, se ela quiser.
-Como
podemos ajudar?
-Há várias
coisas que podemos arranjar…
-Mãe, sei que
tu e a tia estão a dar o melhor mas é ela que tem de conseguir ultrapassar, com
ou sem a vossa ajuda. Ela não está cá, está bem longe de nós, digamos que sou
culpado por esta situação…
-Não tens
culpa, filho.
-Sim, sou
culpado, mas não me importo, sabes? Tive de dizer à tia que tem de descobrir o
que quer da vida dela e que não regresse sem saber o que quer. Tive de
expulsá-la para poder proteger o primo que gosta bastante dela. Um dia, o primo
irá odiar-me por eu ser responsável e não faz mal.
-Filho, sou
a tua mãe, sou responsável por todas as situações que passaste e passarás, o
primo nunca irá culpar-te...
-Sê
realista!
-Nunca irá
culpar-te, filho! A tua tia precisou de ir embora!
-Se eu não
tivesse a conversa com a tia, ela jamais se iria embora!
-De qualquer
maneira, ela…
-Sê
realista, mãe, por favor. É tudo o que eu peço.
Um longo
silêncio. A condutora virou-se para frente com os olhos molhados.
-Mãe, não
estou a provocar. É controlo que não conseguimos controlar. A tia está a sofrer
e vai sofrer sempre, mas tem-nos a nós quando precisa. Sei que vocês amam muito
a tia tal como eu amo, mas não têm como ajudar porque não têm controlo. Ao
menos fizeram alguma coisa para o bem da tia tal como eu, que tive de mentir ao
o primo dizendo que ela está numa missão, entendes, mãe? – Não obteve nenhuma
palavra de resposta. – Vês os meus irmãos. Estão a dormir e bem tranquilos, não
estão com problemas nem obstáculos porque estão a dormir, mãe. É isso que
pretendo! Pretendo proteger os meus irmãos e o meu primo. Não posso deixá-los passar
por uma situação horrível. Tenho que protegê-los…
- Não os podes
proteger todos os dias, filho.
- Sei, mãe.
Digo que tentarei orientar-lhes a vida para ficarem fortes e longe de
obstáculos. Mas não posso controlar a vida deles.
-E em ti? Já
pensaste em ti?
-Estou bem,
mãe. Tenho-te e tenho o pai. Tenho uma família que me ama e que me protege, por
isso estou bem, só tenho de cuidar dos meus irmãos e do meu primo. Sei que, um
dia, eles passarão por alguma situação horrível e incontrolável, mas quero que
saibam que estarei com eles.
-Filho, eu estarei
contigo! E o pai também estará contigo!
-Sim, mãe,
agradeço. Portanto, quero apreciar este momento enquanto estão a dormir e
sabendo que estão bem! E que fique como recordação minha! Estamos bem, mãe,
sim?
-Sim, filho.
Ficaremos bem!
-Vamos, mãe?
-Sim,
querido. Aproveita o momento.
Virou a
chave na ignição, pôs a primeira mudança, empurrou com o pé o pedal, observou o
retrovisor esquerdo para ver se algum carro ia a passar e, por fim, virou para
a estrada.
Com a ajuda de João Fernandes na revisão do Texto