Ópera Esquecida

(Desenhado por mim)

Nessun dorma! Nessun dorma!
Tu pure, o, principessa
Nella tua fredda stanza
Guardi le stelle
Che tremano d’amore
E di speranza

Ar gélido vagueava por todo o lado, regelando as orelhas, os narizes e os olhos lacrimejantes das pessoas, mesmo estando encolhidas, mas o ar cortante saiu vitorioso. No entanto, não venceu certas pessoas, porque são fortes demais para ficarem geladas.

Dilegua, o notte!
Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle!
All’alba vincerò!
Vincerò, vincerò!

Numa sala pequena cheia de decoração de estilo campestre e vintage, a mesa atulhada de loiças a transbordar de comidas, copos cheios de bebidas, talheres manchados pelas comidas e guardanapos marcados pelas bocas sujas, as cadeiras foram aquecidas pelos convidados, incluindo eu, e anfitriões. Todos falaram, riram, comeram e beberam o que puderam, tal como eu.

Godiam, la tazza e il cântico
La notte abbella e il riso;
In questo Paradise
Ne sopra il nuovo dì.

Eu fui o único surdo naquela sala e naquela mesa, mas não me incomodou absolutamente nada.

Ed il mio bacio scioglierà il silenzio
Che ti fa mia!

Pouco a pouco, fui conhecendo os convidados que nunca tinha visto antes, soube que cinco dos convidados eram cantores de Ópera. A partir desse momento, quando olhava para esses convidados, imaginava-os, individualmente, iluminados pelos holofotes e em redor deles tudo negro sem único brilho, a cantarem, mas sem espectadores.

Ma il mio mistero è chiuso in me
Il nome mio nessun saprà!
No, no, sulla tua bocca lo dirò
Quando la luce splenderà!

Quando de repente, dei por mim com a barriga cheia e satisfeita, assim como aconteceu com todos os outros presentes à mesa. De seguida, fomos convidados para uma pequena e linda sala cheia de decorações num estilo inspirado na Monarquia portuguesa. Os cinco convidados aproveitaram para tocar piano e cantar a plenos pulmões.

Libiamo ne’dolci fremiti
Che suscita l’amore,
Poichè quell’ochhio al core

O som dessas vozes penetrou os meus tímpanos quebrados! Nesse momento, imaginei-os de novo, individualmente, a cantar perante espectadores, com roupas velhas, estragadas e com raízes penduradas até aos pés, cheias de espinhos.

Tra voi tra voi saprò dividere
Il tempo mio giocondo;
Tutto è follia nel mondo
Ciò che non è piacer.
Godiam, fugace e rapido
E’il gaudio dell’amore,
E’un fior che nasce e muore,
Ne più si può goder.
Godiam c’invita un fervido
Accento lusighier.

Com vestidos velhos, estragados e com espinhos... soa um terror, pois não? Tenho uma conclusão!

Quando non s’ami ancora.

Eles foram cantores conhecidos nos tempos dele…

Not dite a chi l’ignora,

Hoje em dia, são esquecidos…

Il nome suo nessun saprà!
E noi dovrem, ahimè, morir!

Os tempos mudam! As velhas tradições estão desvanecidas! São esquecidos!

E’il mio destin così…

Apesar de tudo, os cinco cantores continuaram a cantar naquela sala!

Godiamo, la tazza e il cântico
La notte abbella e il riso;
In questo paradiso ne sopra il nuovo dì.

São resistentes e demonstraram a grande paixão que têm pela arte de cantar, mesmo estando abandonados e esquecidos!

All’alba vincerò!
Vincerò, vincerò

Eu, sendo surdo, admiro e respeito o talento e a vocação deles!
Por fim, imaginei-os a cantar para os passageiros das carruagens da minha vida até ao fim dos meus dias...

Sì, sí, ci voglio andare!
E se l’amassi indarno
Andrei sul ponte Vecchio
Ma per buttarmi in arno!

As letras das canções: O Mio Babbino Caro; Nessun Dorma; Brindisi de La Traviata
Com a ajuda de Victor Carneiro na revisão do texto