Mas aqui estou eu!



Deixa-me contar-te uma pequena história. Antes de eu chegar a este mundo cheio de humanos cruéis, fui quase considerada morta por interrupção de gravidez pois os meus pais não planeavam ter outro filho além do meu irmão.
Mas aqui estou eu!

Sou mais nova do que o meu irmão que era um pilar da família, ou seja, a família preferia-o mais que a mim. Fui, digamos, a sombra dele.
Mas eu estou aqui!

Sempre via como o meu irmão era bastante respeitado pelos meus pais e pela nossa comunidade, que lhe ligavam mais e que lhe davam muito mais conversa, e eu sempre fui posto à parte, para não falar sobre o meu nome que sempre foi inexistente, sempre fui conhecida por: filha do/da… e irmã do melhor jogador e esses género. Até cheguei a acreditar que ninguém sabia o meu nome ou o meu nome não tinha importância para eles, por isso acreditei que o meu nome nunca iria existir nem ser importante. Por tudo isso, fui empurrada para a sombra de uma árvore gigantona onde eu fui obrigada a viver e é claro que isso camuflou-me, tornando-me uma rapariga invisível.
Mas aqui estou eu!

E ainda por falar da família, além dos meus pais e do meu irmão, perguntavam-me coisas do género: “Como vai? Escola vai bem? E já tens namorado?” e o resto não se fala, ao contrário, o meu irmão com que eles conversavam mais, mesmo com os pais, e sempre me comparavam com o meu irmão. Transformei-me numa ovelha negra.
 Mas eu estou aqui!

Como era ovelha negra, perguntei-me até se fora raptada pelos meus pais, ou se fui trocada por outro por engano, até se fui adotada. Cheguei a perguntá-lo aos meus pais e sempre negavam e eu era sua filha de sangue, mas não me convenceram, só por causa da diferença entre mim, os meus pais e o meu irmão, pois eu não fazia tudo igual a eles.
Mas aqui estou eu!

Durante a minha adolescência, como disse anteriormente que era uma ovelha negra, na escola onde eu e meu irmão estudávamos, os professores dele, meu irmão, passaram para mim, e sempre diziam que eu era preguiçosa, desperdiçada e coitada por não ser igual ao meu irmão. Viam-me como uma falhada que não teria um bom futuro.
Mas eu estou aqui!

Na secundária, a depressão entrou na minha vida porque não me via a ter sucesso algum na vida porque era diferente de todo o mundo. Isso, portanto, levou-me a não viver mais, sem vontade nem motivação para levantar-me da cama. A única coisa para que eu tinha vontade era desligar-me para toda da vida. Cheguei a ponto de pôr fim à vida. O meu irmão não me deixava ir.
 Mas aqui estou eu!

Fui quase expulsa de casa pelos meus pais, embora não tenha cometido nenhum crime, nem consumido drogas, nem bebido, nem maltratava os meus pais, mas, mesmo assim, tentaram expulsar-me por umas coisinhas de que não gostaram e/ou pretendiam que eu fizesse como eles queriam. O meu irmão não me deixava sair da casa.
Mas eu estou aqui!

Um dia, decidi expor tudo aos meus pais e ao meu irmão, explicar que fui ovelha negra e que o meu irmão era perfeito, e coisas por que passei, acusei-os de comparar-me ao meu irmão e tudo o mais que eu tinha para dizer. Mas, pessoalmente, sempre sabia que ele era o pilar da família, pois eu própria idolatrava-o.
Mas aqui estou eu!

De novo, queria desligar-me, e claro que de novo fui impedida pelo irmão. Segundo ele, eu teria de viver por ele, senão ele ia comigo para o mundo do além ou do nada. Não quis ser responsável pela morte dele…
Mas eu estou aqui!

Com ajuda do meu irmão, tinha um emprego pois nunca tinha chegado a acabar a secundária devido a depressão. As coisas iam um pouco melhor, até ele nos deu uma bela notícia que alegrou todo o mundo, incluindo eu, mas, ao mesmo tempo, pressenti que iria acontecer alguma coisa muito má. Infelizmente tinha acertado, pois o meu irmão deixou este mundo.
Mas aqui estou eu!

Quando ele se foi embora e eu nem podia entregar-me à morte para que ele vivesse, o meu mundo partiu-se em duas metades, o meu coração transformou-se em negro e vácuo, não dava importância às pessoas à minha volta e só pensava no meu irmão. Eu queria seguir o meu irmão, mas não podia nem posso. Só vou quando o último desejo do meu irmão for cumprido.
Mas eu estou aqui!

Os primeiros anos foram difíceis, sempre tinha dificuldade de dizer que o meu irmão morrera. Por vezes, respondi que ele já era ao resto de pessoas que não sabiam. É claro que para quem perde uma pessoa, as pessoas à sua volta mudam para pior e para melhor; no meu caso, ambas as coisas aconteceram, perdi alguns amigos e fiz novos amigos.
Mas aqui estou eu!

Decidi acabar os estudos e cheguei a ter um emprego que ficava muito longe da minha cidade nativa, longe dos meus pais, longe dos meus amigos que conheci desde a infância, e longe de memórias antigas e velhas, e ter uma vida nova numa nova cidade onde construí a minha vida até agora. É a nova cidade que me pertence e a cidade antiga já não me pertence.
Mas eu estou aqui!

Se me perguntassem se estou feliz agora? Ora, vamos ver uma coisa. Além de ter uma vida própria e independente, ter novos amigos que me fazem rir e sentir-me em casa nesta cidade, e isso talvez seja ser feliz, eu não diria isso. Sabes porquê? Apesar de tudo, é uma treta que o meu irmão nunca tenha testemunhado estes momentos da minha vida atual, nem tenha podido estar ao meu lado, nem tenha podido correr para ele quando estou mal, nem tenha podido falar com ele! Isso entristece-me bastante! Já sei que me disseram que ele está no meu coração, que está no céu a ver-me, ou que a alma dele está a ver-me, e estas coisas, mas nunca é suficiente para mim! Nunca! Na minha vida, apesar de tudo, nada é fácil sem ele! Para comparar a minha vida desde que nasci até à morte do meu irmão, quando sofri bastante, e a vida atual que tenho, diria que a vida que tenho agora é mais difícil do que antes, pois cada dia sofro mais por não ter o meu irmão ao meu lado! Inúmeras vezes penso que devia ir ter com ele, desligar-me e já está! Mas não posso! Não posso! Porquê? Não é que esteja a fazer para realizar o último desejo dele, é que tenho uma vida que preciso aproveitar e há inúmeras e infinitivas e belas coisas que irão ocorrer na minha vida e preciso agarrar as boas e as más oportunidades. Isto é um outro desejo do meu irmão para mim, mas o meu maior desejo, acima de tudo, é estar com o meu irmão! Mas não estou pronto para sair este mundo! É uma sensação agridoce, não é?
Por isso, eu estou aqui!
  
Com a ajuda de João Fernandes na revisão do Texto