No Meu Canto

(O desenho inspirado por capa de um filme: Perfume, the story of a murder)

Quatro paredes brancas
Um teto,
Um chão,
Uma janela enormíssima,
Uma cama branca,
Um candeeiro redondo e branco,
Minimalista e vazio.

Eu estava ali,
Neste quarto,
Sem nada para fazer
Além de pensamentos
Ali, bem quieto,
Imóvel
Olhando para teto,
Ou, ali na janela,
Simplesmente parado

 Os meus pensamentos me levariam
Com mil perguntas tais como:
O que eu fazia aqui?
Por que não me mexia?
O que há de especial neste quarto?
Entre outras tantas
Mas a nenhuma delas eu sabia responder.

As minhas emoções,
Naquele momento,
Foram vácuas e apáticas.
Porque, naquele momento,
Cada segundo,
Cada minuto,
Cada hora,
Que sempre foram movimentados
Mas, eu estava parado.

O meu mundo estava com o tempo parado
Não via os segundos a passar
Nem um minuto a passar
Nem uma hora a passar
Nem ninguém passou.

Talvez quisesse que parasse todo o mundo
Talvez quisesse que ninguém se mexesse
Talvez quisesse que todos estivessem quietos
Mas que direitos tenho?
Nenhum!
Absolutamente nenhum.

Simplesmente só estava ali,
Bem quieto,
No meu canto!

Com ajuda de João Fernandes na revisão do texto

Porta


Com uma porta de mogno acastanhado escuro à minha frente, eu não sabia o que fazer ali nem a hora que estava a passar, até não recordava se tinha respirado, só estava ali a observar a porta, sem me mexer. De repente, a porta moveu-se e iluminou em simultâneo, apareceu o vulto negro que me impediu de reagir ou pensar, mas, naquele momento, só me dei conta de que tinha tocado a campainha, devido ao meu dedo indicador. Depois olhei para o vulto visível que era um humano a atender-me.
-Olá!
-Não sei!
-O quê?
-Pensei que tinha sabido a resposta mas acabei de ter uma branca.
-O que queres dizer com isso?
-Penso que é difícil.
-Não entendo o que estás a dizer. Aqui está frio, não queres entrar?
-Aí está! É essa a questão! Por isso não sei se quero entrar.
-Por que não sabes? Não creio que seja uma decisão tão difícil.
-Sim é, muito! Muito mais do que complexo! Mais do que julgas.
-Então vamos ficar por aqui a falar sobre isso?
-Convém! Nem quero dar um passo para a frente nem para trás, portanto, se me permites, ficamos aqui a falar sobre isso e tudo.
-Isso não tem piada. Estou a morrer de frio, mais valia entrar em casa que…
-Porta!
-… está quente. O quê?
-Porta! A tua porta.
-Mas o que tem a minha porta?
-A porta define tudo sobre a nossa decisão. Ou cada um de nós com a decisão.
-A porta…
-A porta pode fechar, certo? E abrir, certo?
-Sim, mas não define nada nem pode fazer sozinha. Tem que ser…
-O auxílio leva a porta a definir.
-Sim, mas sou eu que abro a porta, sou eu que defino ou não e não a porta.
-A porta é uma definição que temos de usar.
-Por favor, não estou a acompanhar o teu pensamento.
-Imagina, se eu decidisse entrar, seríamos cordiais um com outro, simpatizamos um com o outro, apreciaremos o tempo se tudo correr bem, com o tempo a passar, poderíamos deixar de ser cordiais pois iríamos conhecer mais profundamente os nossos feitios, as nossas maneiras e as nossas capacidades, que pode ser uma grande vantagem mas também pode ser uma desvantagem. A única coisa é: se eu entrar e atravessar esta porta, permaneço a sua para sempre e tu a minha também. Se eu decidisse não entrar, cada um segue a sua vida. Mas não sei se é uma vantagem para ambos. Talvez possamos ter algumas cicatrizes, alguns sofrimentos por abandono, ou algo mal resolvido, ou arrependimentos. Mas também pode ser uma vantagem porque não perdíamos tempo. Entendes?
-Por isso a porta é definição para a tal decisão?
-Sim. A definição da decisão! Por isso não sei se devo entrar ou não. Tenho que decidir bem. Preciso de ter tempo para pensar se quero entrar ou não. Não é assim tão simples. Tenho as minhas coisas, não sei se estou pronto para largar algumas ou todas as coisas e ter uma nova vida ou se quero a minha vida atual.
-Estás com medo de arriscar?
-A questão não é ter medo, não quero prejudicar nem perder o meu tempo. Eu até posso procurar outra porta para entrar, mas será que conseguirei encontrar uma porta ideal? E que me deixe entrar? Ou é a tua porta por que devo passar? Não sei. Por isso, é muito complexo, mais do que julgas.
-Ora bem… Penso que eu julgo bem. Deixa-me ver… Podemos ver que a minha porta ainda permanece aberta, certo?
-Sim…
-Que está a deixar ar frio que entra a minha casa, mas tudo bem. Eu posso esperar até decidires se queres entrar ou não. Eu respeitarei qualquer decisão que vás tomar.
-Obrigado. Eu…
-Mas tens que perceber uma coisa. Nem todos podem deixar as suas portas abertas para toda a vida. Como disseste que não queres prejudicar a tua vida, eu também não quero prejudicar a minha, mas estou aqui com a porta aberta. Sou eu que decidi abrir a porta, e não tu que decidiste abrir a minha porta.
-Está certo, mas…
-A porta pode definir as nossas decisões, mas não define nada. São as nossas mãos que definem se queremos abrir esta porta ou não. A porta limita-se a abrir ou a fechar. Entretanto, neste momento, posso deixar-te a porta aberta mas tenho que fechá-la brevemente, pois também preciso de fazer as minhas coisas. Se entrares, eu farei outras coisas. É-me indiferente. Mas não posso esperar pela tua decisão de entrar ou não, de passar ou não por esta porta. Alguns que abrem as portas têm o direito de fazerem tudo o que quiserem, mas, no meu caso, não gosto de deixar a porta sempre aberta senão os ladrões, até assassinos, podem entrar. Não é nada seguro. Até posso pensar que és um ladrão ou assassino, mas estou disposto a arriscar para entrares. Posso ser paciente por um certo tempo, pois tenho limites, ou melhor, todos têm limites, daqueles limites que sempre têm um fim. Não é efetivo nem é eterno, sempre existe um finito para todos. Por exemplo, se entrares, é o fim da decisão, digamos, a decisão foi tomada, mas irá criar outras decisões futuras. Se não entrares, também é o fim da decisão, e também se criam outras decisões, mas um cada vai à sua vida. Respondendo à tua questão, não acho que seja muito difícil decidir se deves passar pela porta ou não, pois se estás com frio, entras. Se não estás com frio e estás bem, então não precisas de entrar. É mais simples do que julgas. Portanto… dou-te apenas um minuto para decidires se queres entrar ou não. Como queres? Queres entrar ou não?
-Eu… eu…
  
Com ajuda de João Fernandes na revisão do texto