Com uma porta de mogno acastanhado escuro à minha frente, eu não sabia
o que fazer ali nem a hora que estava a passar, até não recordava se tinha
respirado, só estava ali a observar a porta, sem me mexer. De repente, a porta
moveu-se e iluminou em simultâneo, apareceu o vulto negro que me impediu de
reagir ou pensar, mas, naquele momento, só me dei conta de que tinha tocado a
campainha, devido ao meu dedo indicador. Depois olhei para o vulto visível que
era um humano a atender-me.
-Olá!
-Não sei!
-O quê?
-Pensei que tinha sabido a resposta mas acabei de ter uma branca.
-O que queres dizer com isso?
-Penso que é difícil.
-Não entendo o que estás a dizer. Aqui está frio, não queres entrar?
-Aí está! É essa a questão! Por isso não sei se quero entrar.
-Por que não sabes? Não creio que seja uma decisão tão difícil.
-Sim é, muito! Muito mais do que complexo! Mais do que julgas.
-Então vamos ficar por aqui a falar sobre isso?
-Convém! Nem quero dar um passo para a frente nem para trás, portanto,
se me permites, ficamos aqui a falar sobre isso e tudo.
-Isso não tem piada. Estou a morrer de frio, mais valia entrar em casa
que…
-Porta!
-… está quente. O quê?
-Porta! A tua porta.
-Mas o que tem a minha porta?
-A porta define tudo sobre a nossa decisão. Ou cada um de nós com a
decisão.
-A porta…
-A porta pode fechar, certo? E abrir, certo?
-Sim, mas não define nada nem pode fazer sozinha. Tem que ser…
-O auxílio leva a porta a definir.
-Sim, mas sou eu que abro a porta, sou eu que defino ou não e não a
porta.
-A porta é uma definição que temos de usar.
-Por favor, não estou a acompanhar o teu pensamento.
-Imagina, se eu decidisse entrar, seríamos cordiais um com outro,
simpatizamos um com o outro, apreciaremos o tempo se tudo correr bem, com o tempo
a passar, poderíamos deixar de ser cordiais pois iríamos conhecer mais
profundamente os nossos feitios, as nossas maneiras e as nossas capacidades,
que pode ser uma grande vantagem mas também pode ser uma desvantagem. A única
coisa é: se eu entrar e atravessar esta porta, permaneço a sua para sempre e tu
a minha também. Se eu decidisse não entrar, cada um segue a sua vida. Mas não
sei se é uma vantagem para ambos. Talvez possamos ter algumas cicatrizes,
alguns sofrimentos por abandono, ou algo mal resolvido, ou arrependimentos. Mas
também pode ser uma vantagem porque não perdíamos tempo. Entendes?
-Por isso a porta é definição para a tal decisão?
-Sim. A definição da decisão! Por isso não sei se devo entrar ou não.
Tenho que decidir bem. Preciso de ter tempo para pensar se quero entrar ou não.
Não é assim tão simples. Tenho as minhas coisas, não sei se estou pronto para
largar algumas ou todas as coisas e ter uma nova vida ou se quero a minha vida
atual.
-Estás com medo de arriscar?
-A questão não é ter medo, não quero prejudicar nem perder o meu tempo.
Eu até posso procurar outra porta para entrar, mas será que conseguirei
encontrar uma porta ideal? E que me deixe entrar? Ou é a tua porta por que devo
passar? Não sei. Por isso, é muito complexo, mais do que julgas.
-Ora bem… Penso que eu julgo bem. Deixa-me ver… Podemos ver que a minha
porta ainda permanece aberta, certo?
-Sim…
-Que está a deixar ar frio que entra a minha casa, mas tudo bem. Eu
posso esperar até decidires se queres entrar ou não. Eu respeitarei qualquer
decisão que vás tomar.
-Obrigado. Eu…
-Mas tens que perceber uma coisa. Nem todos podem deixar as suas portas
abertas para toda a vida. Como disseste que não queres prejudicar a tua vida,
eu também não quero prejudicar a minha, mas estou aqui com a porta aberta. Sou
eu que decidi abrir a porta, e não tu que decidiste abrir a minha porta.
-Está certo, mas…
-A porta pode definir as nossas decisões, mas não define nada. São as
nossas mãos que definem se queremos abrir esta porta ou não. A porta limita-se a
abrir ou a fechar. Entretanto, neste momento, posso deixar-te a porta aberta
mas tenho que fechá-la brevemente, pois também preciso de fazer as minhas
coisas. Se entrares, eu farei outras coisas. É-me indiferente. Mas não posso
esperar pela tua decisão de entrar ou não, de passar ou não por esta porta.
Alguns que abrem as portas têm o direito de fazerem tudo o que quiserem, mas, no
meu caso, não gosto de deixar a porta sempre aberta senão os ladrões, até
assassinos, podem entrar. Não é nada seguro. Até posso pensar que és um ladrão
ou assassino, mas estou disposto a arriscar para entrares. Posso ser paciente
por um certo tempo, pois tenho limites, ou melhor, todos têm limites, daqueles
limites que sempre têm um fim. Não é efetivo nem é eterno, sempre existe um
finito para todos. Por exemplo, se entrares, é o fim da decisão, digamos, a decisão
foi tomada, mas irá criar outras decisões futuras. Se não entrares, também é o fim
da decisão, e também se criam outras decisões, mas um cada vai à sua vida.
Respondendo à tua questão, não acho que seja muito difícil decidir se deves
passar pela porta ou não, pois se estás com frio, entras. Se não estás com frio
e estás bem, então não precisas de entrar. É mais simples do que julgas.
Portanto… dou-te apenas um minuto para decidires se queres entrar ou não. Como
queres? Queres entrar ou não?
-Eu… eu…
Com ajuda de João Fernandes na revisão do texto
