Farol sem faroleiro


Além, o horizonte infinito é uma linha reta que divide dois elementos naturais – Ar e Água. Em cima da linha, o céu está nublado, acinzentado escuro, com algumas nuvens mais claras; por baixo da linha, há somente o mar, refletindo a cor do céu. Além desta linha, existe uma espécie que se destaca entre o mar e o céu, com um formato de cone de estrada sem cor, apenas de cimento. Em cima do cone, tem um formato de “semi-transferidor” vermelho vivo, juntamente com janelas brancas de todo o lado; por baixo do cone, há somente rochas de vários tamanhos, formando um ilhéu. Essa espécie foi construída por homens que lhe deram um nome específico: Farol. Um farol!

O farol tem uma espécie de lanterna enorme com espelho à volta da lâmpada que dá uma luz bastante forte e iluminada, dando sempre uma volta de 360º graus, com a qual orienta os navios que se aproximem de terra e avisa sobre os perigos debaixo do mar com que possam naufragar. Habitualmente, só funciona às noites, e não funciona sem homens que vivem ou passam lá: trata-se de uma profissão conhecida por faroleiro ou por sinaleiro do mar. Nesta profissão, além de ligar o lente de Fresnel, existem outras funções tais como verificar/fazer os arranjos que forem precisos para manter o farol em pé. Existem os faroleiros que habitam nos faróis, e outros que não.

Então, nesse farol específico que eu referi ao princípio, como era evidente, o faroleiro vivia nele. Ele costumava sair, remando, durante o dia, para se abastecer de mantimentos, provindo às suas necessidades; por vezes caminhava nas costas, mesmo com chuva, ele sempre ia, antes de anoitecer, e depois voltava para o farol. Porém, certo dia, aconteceu algo de muito trágico – não para nós, mas para o farol. Porque naquele dia houve uma tempestade, e o faroleiro não se encontrava no farol nem o seu barco estava no cais. O faroleiro jamais voltou para o farol. Como o farol não tinha faroleiro, deixou de ligar a luz. Ninguém conseguiu remar até lá devido às condições do mar, que dificultavam muito. Ninguém se atrevia a passar por lá: somente aquele faroleiro conseguia sempre chegar ao farol e sair dele sem qualquer problema. Temíamos que os navios não chegassem a nós, pois ali à volta do farol existem rochas afiadas escondidas por baixo do mar, que infelizmente fizeram naufragar muitos navios, causando até mortos. Só os nossos pescadores, que vivem connosco, conheciam as zonas mais e menos perigosas para navegar. Tivemos de solucionar a situação, proibindo a navegação aos navegadores desconhecidos sem a presença dos pescadores como guias, só podendo navegar para cá com a nossa autorização e o nosso conhecimento, para o bem de todos. Porém, após uma semana do desaparecimento do faroleiro, o farol ligou-se não se sabia por quem, quando, porquê, como; nem o barco do faroleiro estava lá, nem ninguém o achou sequer.

Habitualmente a luz, lente do Frensel, é muito forte, bem iluminada e brilhante; porém, naquela noite em que o farol ligou, havia luz, mas não era brilhante, o que desorientou pescadores e navegadores que foram parar ao farol, perdendo o controlo dos barcos. Eles próprios não sabiam a razão que os levava ao farol, é como se fossem atraídos para lá, como a lenda das sereias que atraem os navegadores solitários para os devorar. Tivemos outra solução, que passou por impor que os pescadores só viajassem de dia, e nós, os residentes, fechámos as persianas para não observarmos a luz do farol. Muitos crêem que o farol se tornou uma maldição, mas eu próprio não acho que o seja. Acredito que o farol é uma espécie de ser vivo. Penso que está a orientar o seu faroleiro para chegar ao pé dele. Ainda se liga todas as noites até hoje, embora o farol se tenha arruinado ligeiramente, mantendo-se porém em pé.

    O farol não precisa só de ligar a luz, mas sim, sente a falta do faroleiro e precisa dele. Sente muito a falta dele. Não é uma habitação comum, tem sentimentos, e por isso sente muito a falta do faroleiro. Entristece-me ver a luz do farol que deixou de ter brilho; mesmo estando iluminado, não tem o mesmo brilho. A minha questão é: será que o faroleiro volta? 

 Com ajuda de João Fernandes na revisão do texto

Genocídio

(Foto tirada por mim)

 O que é o genocídio? Genocídio é exterminar um grupo, quer seja etnia, religião, deficientes, etc. E não estou a referir o genocídio da Ruanda, da Arménia e da Alemanha. Não posso comparar com estes genocídios, mas o que tenho é comparável a um genocídio.

É assim, vou dar outra perspetiva, mas deixem-me, primeiro, perguntar-vos, e não preciso de obter a vossa resposta.

Quando forem na rua, o vosso objetivo pode ser:

- Chegar ao destino;

- Comprar o que necessitam;

- Apreciar uma boa refeição feito por outros;

- Apreciar o ar puro ou o ar poluído, conforme os locais;

- Praticar algum desporto.

Tudo isso, são coisas mais simples e sem preocupações, correto?

Quando estão no local do trabalho/do estudo, podem querer:

- Acabar/ansiar o dia de trabalho/ de estudo;

É muito comum que alguns tenham alguma ansiedade e stress devido à acumulação de trabalho/estudo, ou não se sintam bem nos locais ou com os colegas, correto?

Conduzir nas estradas pode significar:

-Ter cuidado nas estradas;

-Cumprir as regras rodoviárias.

Isso é para todos, correto?

Andar nos transportes públicos implica:

- Procurar o lugar (favorito) para sentar;

- Reclamar do modo da condução do motorista;

- Reclamar dos cheiros dos outros;

Isso é muito comum para todos, correto?

E quando forem de férias, seja para fora ou para dentro de país, querem:

-Excitar/arejar/conhecer os sítios à vossa escolha;

-Desfrutar as férias, sem preocupações, e sentir alguma paz.

Isso sabe muito bem, correto?

Tudo o que referi em cima é muito comum entre nós, e são hábitos que fazemos todos os dias, sem mais nem menos, não são? Muito simples, não é?

No meu caso, não é nada tão simples, é bastante complicado e complexo. Vou exemplificar-vos:

-Para ir na rua, tenho que estar preparado, mentalmente, para estar pronto para sair de casa, isto é, tenho de prever quanto tempo tenho de estar na rua, se estarei seguro, reconhecer os sítios (mas quando for não conhecer os sítios, terei de repensar muito bem) e etc.;

-Para a ida ao trabalho, é como ir na rua, mas acrescento, tenho de estar bem, antes de sair, para estar bem com as pessoas que me rodeiam;

-Para conduzir, tenho que arranjar uma maneira de distrair-me e de me concentrar nas estradas ao mesmo tempo, ter algum controlo em mim, sem ser um perigo para a minha vida e para as dos outros durante o percurso;

-Para andar nos transportes, tenho de pensar se consigo aguentar o tempo de percurso ou a quantidade de pessoas num dado transporte;

-Para ir de férias tenho de planear muito bem; não é só organizar um itinerário, é a minha mentalidade que tem de assumir todos os riscos (dobro do normal) e todos os “se”.

De qualquer modo, estas coisas afetam-me bastante! Considero que é um genocídio.

Antes do meu genocídio, a única fobia que eu tinha e tenho é por espaços fechados e/ou muitas pessoas que fiquem coladas a mim. É evidente que sou claustrofóbico de forma “hereditário”. Mas, além disso, um parasita invisível – o mais pesado do mundo – surgiu na minha vida na adolescência até hoje em dia, porém, por um ano, digamos que uns 10 meses, o parasita sempre hiberna e, durante 2 meses, sempre acorda. Quando ele acorda, é sempre complicado lidar com ele. E agora o genocídio apareceu há alguns anos, não muitos, e está a conseguir dominar ao meu terreno, e sinto que perdi o meu “eu”.

Então, tenho um parasita e um genocídio, e ambos são os melhores amigos a lutar contra mim e eu a lutar contra eles.

Para vocês, é muito simples lidar com coisas tais como sair da casa, conduzir, apanhar os transportes, ir para o trabalho/estudo, etc., que são de quotidiano; ao contrário de mim, pois o meu quotidiano é ter forças, esforço e muita coragem para prosseguir a minha vida, embora não demonstre muito.

 É um genocídio!

Ainda pior, o que me dificulta mais é as pessoas que eu amo. Muitas delas não passam pela minha experiência e isso torna difícil a sua compreensão, o que é normal pois nunca estiveram na minha pele e eu não desejo que alguma vez estejam. Sei e tenho plena consciência que compreendem e respeitam a minha situação, mas a questão é: irão aguentar-me e lidar comigo devido à minha situação?

Pelos vistos, todos nós temos um limite. É claro que é bastante compreensível que podem deixar de estar ao meu lado, pois têm esse direito e têm as suas próprias vidas. Eu não os culpo nem os responsabilizo porque eu não consigo pedir mais além da paciência, da compreensão e da ajuda. Mas o que me entristece é fazê-los sentir-se impotentes sem saber o que fazer, pois não é minha intenção fazê-los sentir-se assim, e isso leva-me também a não falar muito sobre a minha situação às pessoas que eu amo. Simplesmente escondo a minha situação para ficar bem com eles.

Talvez que a culpa seja minha por não conseguir encontrar uma forma melhor para expressar-me e/ou explicar-me bem aos outros sobre o que tenho exatamente, pois isso não é um conto de fadas: “Era uma vez (…) e viveu feliz para sempre”.

Muitos de vocês podem dizer:

-Vai a uma psicóloga;

-Não penses assim, não sejas deprimido nem pessimista;

-Faz o que gostas mais e já ficarás bem;

-Isso não é nada, tens de te livrar desses pensamentos;

-Por que pensas assim? Não tens motivos para tal;

E etc.

Isso não ajuda absolutamente nada. Não é assim tão simples para quem tem os neurónios quebrados. Ninguém ficará bem de um dia para o outro. É uma luta diária e quotidiana! Por isso é um genocídio para quem passa pelo mesmo que eu.

Para finalizar, abordo as questões:

-Quando irei reencontrar o meu “eu”?

-Se não reencontrar o meu “eu”, estarei mais perdido do que estou?

-Sem ele, ponho em risco a minha vida?

São questões principais que até me assustam só de escrevê-las, ou de pensar no que perco todos os dias, tudo por causa da:

Merda do genocídio! 

Com ajuda de João Fernandes na revisão do texto