O que é o genocídio? Genocídio é exterminar um grupo, quer seja etnia, religião, deficientes, etc. E não estou a referir o genocídio da Ruanda, da Arménia e da Alemanha. Não posso comparar com estes genocídios, mas o que tenho é comparável a um genocídio.
É assim, vou dar outra perspetiva, mas deixem-me, primeiro, perguntar-vos, e não preciso de obter a vossa resposta.
Quando forem na rua, o vosso objetivo pode ser:
- Chegar ao destino;
- Comprar o que necessitam;
- Apreciar uma boa refeição feito por outros;
- Apreciar o ar puro ou o ar poluído, conforme os locais;
- Praticar algum desporto.
Tudo isso, são coisas mais simples e sem preocupações, correto?
Quando estão no local do trabalho/do estudo, podem querer:
- Acabar/ansiar o dia de trabalho/ de estudo;
É muito comum que alguns tenham alguma ansiedade e stress devido à acumulação de trabalho/estudo, ou não se sintam bem nos locais ou com os colegas, correto?
Conduzir nas estradas pode significar:
-Ter cuidado nas estradas;
-Cumprir as regras rodoviárias.
Isso é para todos, correto?
Andar nos transportes públicos implica:
- Procurar o lugar (favorito) para sentar;
- Reclamar do modo da condução do motorista;
- Reclamar dos cheiros dos outros;
Isso é muito comum para todos, correto?
E quando forem de férias, seja para fora ou para dentro de país, querem:
-Excitar/arejar/conhecer os sítios à vossa escolha;
-Desfrutar as férias, sem preocupações, e sentir alguma paz.
Isso sabe muito bem, correto?
Tudo o que referi em cima é muito comum entre nós, e são hábitos que fazemos todos os dias, sem mais nem menos, não são? Muito simples, não é?
No meu caso, não é nada tão simples, é bastante complicado e complexo. Vou exemplificar-vos:
-Para ir na rua, tenho que estar preparado, mentalmente, para estar pronto para sair de casa, isto é, tenho de prever quanto tempo tenho de estar na rua, se estarei seguro, reconhecer os sítios (mas quando for não conhecer os sítios, terei de repensar muito bem) e etc.;
-Para a ida ao trabalho, é como ir na rua, mas acrescento, tenho de estar bem, antes de sair, para estar bem com as pessoas que me rodeiam;
-Para conduzir, tenho que arranjar uma maneira de distrair-me e de me concentrar nas estradas ao mesmo tempo, ter algum controlo em mim, sem ser um perigo para a minha vida e para as dos outros durante o percurso;
-Para andar nos transportes, tenho de pensar se consigo aguentar o tempo de percurso ou a quantidade de pessoas num dado transporte;
-Para ir de férias tenho de planear muito bem; não é só organizar um itinerário, é a minha mentalidade que tem de assumir todos os riscos (dobro do normal) e todos os “se”.
De qualquer modo, estas coisas afetam-me bastante! Considero que é um genocídio.
Antes do meu genocídio, a única fobia que eu tinha e tenho é por espaços fechados e/ou muitas pessoas que fiquem coladas a mim. É evidente que sou claustrofóbico de forma “hereditário”. Mas, além disso, um parasita invisível – o mais pesado do mundo – surgiu na minha vida na adolescência até hoje em dia, porém, por um ano, digamos que uns 10 meses, o parasita sempre hiberna e, durante 2 meses, sempre acorda. Quando ele acorda, é sempre complicado lidar com ele. E agora o genocídio apareceu há alguns anos, não muitos, e está a conseguir dominar ao meu terreno, e sinto que perdi o meu “eu”.
Então, tenho um parasita e um genocídio, e ambos são os melhores amigos a lutar contra mim e eu a lutar contra eles.
Para vocês, é muito simples lidar com coisas tais como sair da casa, conduzir, apanhar os transportes, ir para o trabalho/estudo, etc., que são de quotidiano; ao contrário de mim, pois o meu quotidiano é ter forças, esforço e muita coragem para prosseguir a minha vida, embora não demonstre muito.
É um genocídio!
Ainda pior, o que me dificulta mais é as pessoas que eu amo. Muitas delas não passam pela minha experiência e isso torna difícil a sua compreensão, o que é normal pois nunca estiveram na minha pele e eu não desejo que alguma vez estejam. Sei e tenho plena consciência que compreendem e respeitam a minha situação, mas a questão é: irão aguentar-me e lidar comigo devido à minha situação?
Pelos vistos, todos nós temos um limite. É claro que é bastante compreensível que podem deixar de estar ao meu lado, pois têm esse direito e têm as suas próprias vidas. Eu não os culpo nem os responsabilizo porque eu não consigo pedir mais além da paciência, da compreensão e da ajuda. Mas o que me entristece é fazê-los sentir-se impotentes sem saber o que fazer, pois não é minha intenção fazê-los sentir-se assim, e isso leva-me também a não falar muito sobre a minha situação às pessoas que eu amo. Simplesmente escondo a minha situação para ficar bem com eles.
Talvez que a culpa seja minha por não conseguir encontrar uma forma melhor para expressar-me e/ou explicar-me bem aos outros sobre o que tenho exatamente, pois isso não é um conto de fadas: “Era uma vez (…) e viveu feliz para sempre”.
Muitos de vocês podem dizer:
-Vai a uma psicóloga;
-Não penses assim, não sejas deprimido nem pessimista;
-Faz o que gostas mais e já ficarás bem;
-Isso não é nada, tens de te livrar desses pensamentos;
-Por que pensas assim? Não tens motivos para tal;
E etc.
Isso não ajuda absolutamente nada. Não é assim tão simples para quem tem os neurónios quebrados. Ninguém ficará bem de um dia para o outro. É uma luta diária e quotidiana! Por isso é um genocídio para quem passa pelo mesmo que eu.
Para finalizar, abordo as questões:
-Quando irei reencontrar o meu “eu”?
-Se não reencontrar o meu “eu”, estarei mais perdido do que estou?
-Sem ele, ponho em risco a minha vida?
São questões principais que até me assustam só de escrevê-las, ou de pensar no que perco todos os dias, tudo por causa da:
Merda do genocídio!
Com ajuda de João Fernandes na revisão do texto
