Mãe?


-Mãe?
-Sim?
(Um momento de silêncio)
-Mãe?
-Sim, querido?
-Tu e o pai casaram?
-Sim, casámos.
-E depois?
-Tivemos-te a ti!
(Outro momento de silêncio)
-Mãe?
-Sim?
-Vocês casaram por minha causa?
-Não, meu querido! Nós casámos por amor.
-Hum... - Olhando o brinquedo. - Mãe?
-Sim?
-O que é amor?

-Hum... - Olhando a barriga do filho, meteu o dedo indicador no umbigo dele. - Sabes, meu filho, o amor é sentir as borboletas no estômago e o coração a bater muito...
-Mãe? - interrompeu-a.
-Sim?
-Existem borboletas dentro do estômago?
-Digamos que sim. É só imaginar.
-Então teria borboletas no estômago se visse uma menina?
-É possível, sim.
-E menino?
-O quê?
-Teria borboletas no estômago se visse um menino?
-É óbvio que sim. Tudo é possível.
-Mas sempre vi um menino e uma menina juntos como tu e o pai! Nunca vi um menino e um menino. Ou uma menina e uma menina!
-Querido...
-Mas existe por aí? - interrompeu-a.
-Sim, claro, mas é raro. Escondem-se muito.
-Porquê?
-Porque os maus não gostam de ver dois meninos ou duas meninas juntos, por isso têm de se esconder.
-Mas o amor é importante para a vida?
-Sim.
-Então porquê é que não gostam? Os meninos ou as meninas não deviam ter amor?
-Porque são maus, só pensam neles próprios.
-Se eu sentir amor por um menino, não vais gostar? E o pai também não?
-Ouve, meu filho. Eu e o teu pai amamos-te e vamos sempre amar-te, pouco importa se tu tens amor por um menino ou uma menina, nós iremos amar-te, e não deves esconder-te por causa dos outros, sim?
-Sim.
(Outro momento de silêncio)
-Mãe?
-Sim?
-Então eu quero sentir as borboletas no estômago como tu e o pai. Só saberei se sentirei amor quando vir um menino ou uma menina!


Com a ajuda de João Fernandes na revisão do texto. 
Pedro Ribeiro