Nostalgia


Tudo negro, sem um ponto de outra cor, mas existe uma certa brilhante – Um brilho negro – Sem entender o que estou a ver. Toda a brisa, tão fresca brisa, que penetra o corpo sem ter consentimento – Uma brisa desrespeitosa – Sem saber o que estou a sentir…

Oh…

Está a matar-me!

O meu coração está prestes a partir-se em estilhaços!

Oh, meu coração!

Oh, minha vida tão cruel e trágica…

Um certo odor que perfura as narinas – Ar poluído – Penetra o meu cérebro e os meus pulmões. O silêncio, nem uma onda sonora penetra os tímpanos – Absoluto silêncio – Sem saber onde estou…

Oh…

Porquê eu?

Que mal te fiz?

Mereço assim tanto em troca?

A minha presença nunca te agradou?

Preciso de perceber o que estou a fazer, não posso deixar-me assim tão despercebido nem descontrolado, então quero decidir fazer alguma coisa:

A visão negra tornou a visão colorida – Numa rua em linha reta, umas belas centenas de pessoas diferentes a andar em todos os sentidos, os prédios pombalinos antigos e atualizados com montras coloridas, milhares de pombos a voar, tudo ao mesmo tempo com milhares de informações visíveis.

O tato desconfortável tornou o tato confortável – Vento levado pelas pessoas que passam e vento natural que penetra a rua, milhão de milhares informações tateáveis tudo ao mesmo tempo.

O olfato inaceitável tornou o olfato aceitável – Carrinhos de comidas e de gelados, nos prédios com restaurantes e lojas de perfumes, as pessoas perfumadas com todos os tipos de odor, tudo ao mesmo tempo com milhares de informações de aromas.

A audição silenciosa tornou a audição barulhenta – Barulho dos carros a passar, gritos a clamar  atenção, dos instrumentos musicais, tudo ao mesmo tempo com milhares de informações auditivas;

Oh…

Eu sempre te amava

Eu sempre te amei

Eu sempre te amo

O que me acontecerá, sempre te amarei

Eu ali no meio da rua, apressado na multidão, sem saber o que fazer, a não ser observar o Arco Triunfo da Rua Augusta, com a sua bela arte que exibe as estátuas vestidas e seminuas, feito por homens na época do reinado de D. Luís I. Este monumento fascina-me tanto que nem sei explicar de onde bem o meu fascínio.

Oh,

Esta rua viu tanta coisa

Tal como eu vi tanta coisa

Tal como tu viste tanta coisa

Todos os que viram tanta coisa

A meio da rua onde estou, existe uma certa brisa fresca que me levou a ter pele de galinha, talvez uma influência da sensação inquieta que alastrou por todo o meu corpo, mesmo sabendo o que estou a sentir, mas ao mesmo tempo, estou a negar.

Oh,

Esta rua passou tanta coisa

Tal como eu passei tanta coisa

Tal como tu passaste tanta coisa

Todos que passam tanta coisa

Inspirei o ar puro, mas com consciência que ali ao meio da rua que não existe ar puro. Com odores variados comestíveis e não comestíveis, tudo à mistura, que me deixou apreciar cada vez mais.

Oh,

Esta rua cheirou tanta coisa

Tal como eu cheirei tanta coisa

Tal como tu cheiraste tanta coisa

Todos que cheiram tanta coisa

Tanto barulho, com poluição sonora no meio onde estou, mesmo sendo surdo, mas um certo som que penetra os meus tímpanos e que me inquieta, mesmo sem saber se é um incómodo para mim.

Oh,

Esta rua ouviu tanta coisa

Tal como eu ouvi tanta coisa

Tal como tu ouviste tanta coisa

Todos os que ouviram tanta coisa

Com os sentidos que sinto, à exceção do paladar, me inquieta, mas ao mesmo tempo, agrada-me e há um certo conforto dentro de mim por tudo a isso.

Oh…

Está a matar-me!

O meu coração está prestes a partir-se em estilhaços!

Oh, meu coração!

Oh, minha vida tão cruel e trágica.

Porquê eu?

Que mal que te fiz?

Mereço assim em troca?

A minha presença nunca te agradou?

Deparo-me com uma multidão curiosa, por debaixo do Arco Triunfo, consigo focar numa pessoa específica que está entre a multidão, que traz um vestido preto longo com um xaile encarnado com imagem de flores cosidas à mão, cabelo preso acastanhado, lábios avermelhados pintados, olhos brilhantes e tristes, as mãos e braços mexiam, atrás desta mulher, um homem sentado, que vestia um fato cinzento com guitarra portuguesa com cor castanho brilhante.

Oh…

Diz-me o que mal te fiz?

Não consegues me amar, apesar de tudo?

Oh, como sofre o meu coração

Está a matar-me de propósito

Acabei por ficar imóvel ali ao meio da rua, fiquei fascinado e empático só a ver.

Oh…

Nostalgia, minha nostalgia

Eu sempre te amava

Eu sempre te amei

Eu sempre te amo

O que me acontecerá, sempre te amarei

Voltei a mim, quando ela fechou os olhos e uma lágrima saiu do meu olho, neste momento, quero parar de ver, de sentir, de inspirar e de ouvir.

Com ajuda de César Parreira na revisão do texto