Impotência

(fotografado por Aldónio Pestana, em 2017)


Nadas, nadas tranquilamente, longe da civilização balnear
Viraste-te de peito para cima e olhando para o céu
Reparaste que estás longe da praia
Neste momento, sentes-te muito leve e sereno enquanto flutuas
De repente, sentes um calafrio nas tuas costas
E a corrente que te leva para mais longe da terra
Começas a pensar que devias voltar para terra
Nadas, nadas contra a corrente
Começas a sentir algum desconforto e medo
Com a corrente, que te leva mais longe, cada vez mais longe
Começas a tentar controlar-te para não entrar em pânico
Continuas a nadar, lutando com as tuas forças
Mas começas a perder as forças para nadar
Cada braçada te aumenta a fadiga
Os braços a doer e as pernas também
Mas continuas a nadar
Começas a reparar que o teu corpo está a deixar de responder
Os teus pensamentos estão confusos
Decides parar e ser levado pela corrente
Enquanto flutuas, para descansar um pouco
Para recuperar as forças para voltar
Mas o corpo não voltou a responder
E os teus pés estão a ser submergidos
Lá vão as pernas
De seguida, o peito
Com os braços
Chega até ao teu pescoço
Tentas nadar para que a cabeça fique fora da água
Mas o corpo não voltou a responder
Assim do nada, sentes o sabor salgado nos teus lábios
Já não respiras, pois o nariz está a ser submergido
Os teus olhos desfocam-se, pois estão debaixo de água
Questionas-te se tinhas como socorrer-te
E afirmas que não tinhas pois não tiveste tempo
Sentes o corpo mais pesado
Puxado para baixo, onde fica mais escuro do que em cima
Olhas para cima, os teus olhos embateram com os raios de sol no movimento da água
Continuas sem ar
Continuas sem forças para nadar
Fechas os olhos
Começas a perder as esperanças
Afirmas que ninguém te pode salvar pois ninguém te está a ver
Neste momento começas a entender que estás a afogar-te
Aparecem flashes na tua mente
Da tua vida desde que nasceste até agora
De bons momentos e maus também
Começas a despedir-te, mentalmente, das pessoas que amas
Mas o corpo começou a responder
Que não está preparado para morrer assim
Encontras uma força desconhecida em ti
Começas a nadar, a nadar e a nadar com toda a força que te resta
Para te salvares
A tua cabeça já saiu da água
Sentes o alívio por respirar o teu ar
E estar vivo
Mas ainda não estás seguro!

Com ajuda de João Fernandes na revisão do texto