Hoje, domingo, estava a tratar das lides da casa e uma pergunta muito antiga e muita velha – “De qual gostas mais: mãe ou pai?” – surgiu na minha cabeça e, de facto, atormentou-me um pouco, pois esta pergunta levou-me a viajar até ao meu tempo da infância.
Naquele tempo da infância, o convívio entre as crianças e os adultos era muito frequente na Comunidade Surda de onde vinha e onde cresci. Habitualmente, o convívio realizava-se nas sextas-feiras e nos sábados numa associação de surdos e havia muita gente de todas as idades, e, ainda por cima, venho de uma família surda que é muito conhecida, pois o meu pai era organizador de viagens de várias zonas portuguesas e organizava autocarros privativos para poder levar os surdos nestas viagens e conviver. A minha mãe, por seu lado, participava em várias atividades e eventos na comunidade surda. Assim, eles ganhavam o respeito da comunidade surda, e por isso eu e minha irmã sempre fomos reconhecidos pelos pais.
E então, quando ia aos convívios, sempre me perguntavam uma pergunta muito constante: “De qual gostas mais: mãe ou pai?”. Eu, por vezes, respondia que era um dos pais, ou fugia da pergunta, porque ela sempre me incomodava inteiramente, sendo que os meus pais eram divorciados e a mãe tinha um parceiro, mas isso sempre foi com eles e não tinha a ver com vida deles. Porém, conscientemente, eu sabia e temia que um dos pais pudesse ficar magoado com a resposta, mas, inconscientemente, quem me colocava a pergunta eram coscuvilheiras principalmente, de meia-idade e idosas! De facto, após a resposta, elas já estavam a criticar umas com as outras, à minha frente, sobre um dos pais de que gostava menos, ou mais, e ainda tinham o género de comentário que diziam: “Então a tua mãe abandonou o teu pai e foi para outro. Devias gostar mais do pai que é bondoso e tua mãe não presta!” Ou então: “A tua mãe sofreu muito, merecia muito mais que estar com o teu pai. Devias gostar da tua mãe!”. Este género de comentários equivale a uma bomba atómica e gerava uma polémica dentro da comunidade, mas eu não tinha noção pois achava que era normal responder. Ao mesmo tempo, sempre tinha noção de que não sabiam nadica de nada sobre a nossa vida íntima ou não estavam a par de informações. Se pensasse outra forma, da perspetiva de um ouvinte, se a criança recebia a bomba atómica como recebia, com certeza que corria para os pais e ia ser levado para o psicólogo ou algo assim para tratar a sua saúde mental, mas para a comunidade surda, a honestidade extrema era muito normal! Mesmo sabendo destas coisas, ignorava os comentários insignificantes, porém, eram uma espécie de faca muito afiada para abrir uma ferida. Ao mesmo tempo, sentia que tinha a obrigação de escolher um dos pais e não podia escolher ambos, e ainda, que tinha a obrigação de responder aos coscuvilheiros e comentadores satânicos.
Na vida adulta, a pergunta chegou ao fim, finalmente! A última pergunta quando eu tinha na casa dos 20 foi quando duas senhoras, que eu não conhecia, vieram perguntar-me quem era. Habitualmente, respondia em nome dos meus pais para facilitar a memória delas a identificar-me. Entretanto uma delas perguntou, sem hesitar, de qual que eu gostava mais. Antes de eu responder, outra impediu-a e dizia que não poderia perguntar isso e que era falta de respeito. Fui salvo por ela e fiquei aliviado inteiramente, mas senti que estava na hora de pôr fim à pergunta fatal, e não respondi e segui a minha vida.
Com ajuda de João Fernandes na revisão do texto

